• Semanada #3 – de retrospectiva?

    Semanada #3 – de retrospectiva?

    Essa semana eu estive de folga, então me empenhei em passá-la da forma mais alienada possível: jogando videogame, escutando música e lendo, para ocupar minha mente de tal forma que nem um ÚNICO pensamento pudesse se manifestar. O ruim é que eu não tenho tantos links legais para indicar de coisas que eu vi nessa semana, porque não vi quase nada pelas interwebs. Então, decidi catar umas coisas que eu li, assisti ou ouvi esse ano.


    Videogames

    Fields of Mistria – que estou em um hiperfoco nesse momento. Um Stardew Valley mais charmoso. Joguinho de fazenda com combate em masmorras.

    Persona 5 Royal – tinha travado em um palácio com boss particularmente difícil e deixei de lado por meses, mas recentemente consegui passar e continua sendo um dos MELHORES RPGs que eu já joguei. Estou quase terminando, acho. Sem spoilers, por favor

    • Ace Attorney, a trilogia clássica – tenho uma maldição com o primeiro jogo que estou tentando quebrar esses últimos dias. Toda vez eu perco o save dele. Joguei no Wii e no 3DS, e agora na versão PC. Agora vai!

    ♦ Minha irmã é super fã da série e há anos me recomenda. Aliás, ela tem um blog de histórias, aproveita para conhecer já!

    • Hello Kitty Island Adventure – desde que veio para o Switch, esse jogo tem sido a minha obsessão. Não aguento mais gastar em merchan da Hello Kitty por conta desse jogo. É um Animal Crossing, mas com os personagens da Sanrio e muitas, muitas flores para plantar com cores e padrões diferentes. Tenho uma PLANILHA pra acompanhar isso, acredita?


    Livros

    Série Hawthorn & Horowitz, de Anthony Howowitz – Já tinha lido os dois primeiros da série do detetive Hawthorn e seu biógrafo, o próprio autor, Anthony Horowitz. Terminei os outros três quase em sequência e, se tivessem mais lançados, eu estaria lendo. Anthony Horowitz é um autor de livros e séries de tv consagrado. Hawthorne é um detetive particular expulso da polícia, mas que atua como consultor para séries de tv e também para a própria polícia. Foi em um set de gravações que os dois se conheceram e, anos depois, Hawthorne procura Horowitz para escrever sua biografia. O que o autor não sabia é que seu biografado faz o máximo possível para esconder o seu passado. Então, Anthony começa a acompanhá-lo nas investigações.

    Eu já gostava muito do autor, que comecei a ler com sua fanfic autorizada de Sherlock Holmes, A Casa da Seda. Depois descobri que ele foi roteirista da série Poirot, a MELHOR adaptação dos livros do detetive belga da Agatha Christie. Depois li dois livros da série Magpie Murders, que também gostei. Mas a série Hawthorne é meu favorito, pois um literal self insert do escritor. É fictício, mas tem um pé no real: Horowitz não perde a oportunidade de fazer propaganda de suas séries de tv e livros.

    Pra quem gosta de livros de detetive, eis um contemporâneo que não é só sangue e desgraça.

    Infelizmente, não tem tradução em português ainda.

    •Série Lockwood & Co, de Jonathan Stroud – Young-adult sobre um trio de adolescentes encrenqueiros e revoltados contra o sistema, que possuem uma agência de investigação paranormal. No universo dessas histórias, o avano tecnológico foi parado devido a uma epidemia de fantasmas, então a indústria metalurgica é a coisa mais lucrativa, já que usam metais em correntes e espadas e similares, para pegar os fantasmas. Ah, só as crianças e adolescentes conseguem ver esses espíritos, por isso estão na linha de frente do combate.

    Muito britânico e meio problemático em alguns pontos (eu não curto autor homem escrevendo menina adolescente, pois falta VIVÊNCIA, então cai facilmente em clichês), mas é extremamente divertido… embora todos sejam meio fudidos da cabeça, em especial Anthony Lockwood, chefe da agência que leva seu nome. Um garoto de cabelos escuros, pálido, bem vestido, obcecado por sua melhor amiga que é uma garota mais fodona que ele -porém emocionalmente constipado -, levemente suicida e de passado trágico, necessitando urgentemente de terapia. Quase um herói byroniano que, infelizmente, me pega toda vez.

    (eu li essa série justamente pq diziam que Lockwood lembrava Kaz Brekker, um dos meus personagens favoritos de outro YA, Six of Crows, da Leigh Bardugo)

    (sim, eles possuem a MESMA vibe)

    Teve uma série na Netflix, cancelada em uma temporada. A série é meio ruim, mas o elenco principal está muito bem nos papéis.


    Filmes

    Assisti muita coisa vintage e vou indicar dois filmes engraçadinhos:

    O Pirata (1948) – com a Judy Garland e Gene Kelly, é um filme musical (coisa que eu não curto muito) mas é tão aleatório que ajuda a desligar a cabeça que é uma beleza.

    Quanto Mais Quente Melhor (1959) – com a Marilyn Monroe. Dois caras jurados de morte se disfarçam de mulheres para não serem pegos. Achei que seria mais homofóbico, porém me surpreendeu positivamente, e é até quase progressista em alguns aspectos.


    Podcasts

    Por fim, vim recomendar o episódio das melhores fofocas do ano (segundo os apoiadores do podcast) do meu podcast favorito, Fofoca na Calçada, do feed do Hoje Tem. Para que gosta de ouvir relatos fofoqueiros e escabrosos de estranhos, esse é ó: ouro puro.


    Até o ano que vem!

  • A dominação da IA está aí

    A dominação da IA está aí

    Agora você já tem a oportunidade de ser corno de IA! Ou talvez se juntar a uma seita de IA. A tecnologia é uma maravilha.

    De uns anos pra cá, temos visto a expansão acelerada do uso indiscriminado de Inteligência Artificial, e agora a gente não pode mais rir do cara do filme Her (2013), porque sim, já temos pessoas nesse momento sendo cornas de algum chatbot IA por aí.

    E a coisa não é apenas sobre cornos, mas também sobre… tudo? Estamos sendo bombardeados pela indústria anunciando novos produtos com IA embutida. Agora TUDO o que você tem pode querer ser mais inteligente que você e controlar a sua vida. Ou não, porque a IA não tem nada de inteligente em si, ela apenas vomita tudo o que pode comer enquanto estava sendo alimentada por milhões de dados aleatórios tirados de vários lugares, principalmente da internet.

    Não consigo mais fazer uma busca, se estiver usando o Google, sem que ele automaticamente me entregue um mashup qualquer em segundos gerados por uma IA sobre a questão. De onde vem esses dados? Muitas vezes, incorretíssimos, como a vez que o AI Overview da busca do Google recomendou comer pedras todos os dias, que provavelmente veio de alguma resposta engraçadinha de um usuário do Reddit. Sim, modelos de IA comem com gosto o conteúdo publicado no Reddit… aquele site que talvez seja o segundo maior bueiro da internet (o primeiro sendo o X, claro. O Reddit ainda é ótimo pra encontrar coisas de joguinhos).

    Quando estava fazendo meu imposto de renda, fui procurar o informe de rendimentos em um banco digital, e descubro que a busca dele é totalmente integrada com um chatbot. Eu não quero um chatbot na barra de busca do banco, eu quero… sei lá uma interface mais organizada pra poder encontrar as coisas mais facilmente.

    O Chat GPT já está criando líderes de de culto. Em alguns casos, a IA é o líder do culto, noutros a IA convence o usuário maluco que ELE é o próprio Deus. Imagina isso, uma tecnologia que permite qualquer doidinho de bairro se sinta validado como um ser altamente avançado.

    A crescente dependência da IA por usuário também é uma espécie de culto… onde a palavra da IA é lei, e não se questiona a informação gerada por ela.

    Outro assunto um tanto preocupante é sobre pessoas desenvolvendo relacionamentos com chatbots, como no filme Her já citado acima … uma mistura doida de uma relação parassocial com escapismo. Montar uma pessoa “ideal” que sempre concorda com você? O que é isso? Chobits na realidade virtual?

    Eu poderia abrir uma longa dissertação aqui sobre como a IA poderia estar libertando o trabalhador do serviço repetitivo e deixando tempo para coisas criativas. Mas, como estamos em uma realidade capitalista, é claro que o patrão acha muito mais compensatório demitir o trabalhador e pagar uma IA corporativa para fazer todo o trabalho. Ao mesmo tempo, um data center pra sustentar IA tem impactos ambientais profundos, e no mão de bilionário que não tá nem aí pra os outros então? A receita do desastre climático que já parece normalizado.

    Mas eu não vou entrar nesse caminho hoje. Hoje vou reclamar da IA fazendo ARTE.


    A IA faz ARTE? Uma imagem gerada a partir de um prompt, um livro inteiro… se a IA não tem consciência, ela não poderia ser capaz de ter expressão artística? Bom, a resposta é simples: não, ela apenas copia o trabalho de um ser humano.

    A Meta treinou seu modelo de IA, o Lhama, simplesmente pirateando conteúdo de milhares de livros. O mais engraçado disso é que eles usaram a base de dados do LibGen, que é um projeto de pesquisadores russos. E fizeram isso porque seria “caro” e “demorado demais” simplesmente comprar os direitos das publicações. Sim, a Meta pertence ao cara que é o terceiro homem mais rico do mundo.

    Hayao Miyazaki, também conhecido como o velho depressivo do Studio Ghibli, já havia se manifestado sobre o que ele pensava sobre IA em uma reunião em 2016: “Estou completamente enojado. Se você realmente quer fazer coisas assustadoras, pode ir em frente e fazer. Eu nunca desejaria incorporar essa tecnologia ao meu trabalho. Sinto fortemente que isso é um insulto à própria vida”. Esse mesmo cara viu o trabalho do seu estúdio ser, sejamos francos, roubado pela OpenAI, para treinar seu banco de dados de gerador de imagens do ChatGPT para produzir em escala industrial imagens “no estilo Ghibli”. As aberrações geradas por isso incluem um Elon Musk e Donald Trump no estilo fofinho que o estúdio é conhecido. Isso aconteceu agora, em março de 2025. Era passar em qualquer rede social para ver centenas de imagens geradas por essa IA no estilo Ghibli, de memes a fascistas.

    É triste ver o trabalho de um estúdio de animação que preza tanto pela arte criada pelo trabalho de dezenas de artistas manualmente. O trabalho deles é fantástico, a atenção ao detalhe está presente em qualquer filme do Ghibli que você assistir. E agora, virou um slop viral de internet.

    Miyazaki de perfil, segurando um cigarro e declarando que "a maior parte do nosso mundo é lixo"
    o mundo virando um vale de slops de IA

    Os primeiros modelos de IA que geravam imagens e vídeos não eram tão avançados assim, e dava pra ver de cara que era IA: mãos com dedos demais, uma certa qualidade de vale da estranheza… O que quase não é a realidade agora, com os últimos saltos tecnológicos. O lançamento do Google Veo 3 no final de maio, com seus vídeos agora incluindo audio, diálogo e sons ambientes. Nas últimas semanas foi difícil andar na internet sem se deparar com esse vídeo.

    Bizarro demais um programa que não existe, com pessoas que não existem. É um video engraçado porque o roteiro foi escrito por um humano: o próprio criador do Girls in the House, então entretém. Mas o medinho de onde isso vai chegar? Não dou até o final do ano pra Netflix lançar um filme todo feito em IA, sem um único ator, dublador, roteirista… o sonho deles não pagar mais pessoas. Claro, que o impacto no entretenimento é tremendo. Mas o pior de todos é que ano que vem é ano eleitoral. Aí já viu né.


    Eu estava finalizando esse post quando me aparece esse vídeo sobre um curso de escrita… ministrado pela Agatha Christie. Que morreu há 50 anos atrás. Com o uso de IA, “reviveram” a véia pra ganhar dinheiro. Coisa que o bisneto dela adora fazer, licenciando as obras para adaptações de gosto duvidoso *cof filmes do Kenneth Branagh cof*

    É assustador que nem morta o capitalismo te deixa descansar em paz. A ironia de usar uma imagem de uma autora pra vender cursos para outros autores… apresentado pela versão IA, que está aos poucos invadindo o espaço de pessoas criativas. Estou com medo da Agatha IA do uncanny valley vir assombrar meus sonhos essa noite…

    Em conclusão, a IA agora sente pânico, estresse e medo, enquanto joga Pokémon. Só deixando essa informação aqui mesmo.

  • A impermanência dos espaços na Internet

    A impermanência dos espaços na Internet

    O bloqueio do X no Brasil fez com que os órfãos do hospício virtual procurassem uma casa nova. Bluesky e Threads despontaram como as alternativas preferidas, e uma parcela ainda se aventurou para o Mastodon.

    Cada rede tem lá os seus prós e contras e não é sobre isso que eu quero falar. É que essa situação me lembrou de uma coisa que eu já queria escrever sobre, mas fico procrastinando. Queria escrever sobre a impermanência dos espaços na Internet, os cercados virtuais e a perda da customização do seu espaço.

    Tá, parecem vários assuntos, mas no fundo, no fundo, eles estão ligados de certa forma.

    Antes do conceito de criar conteúdo em redes sociais, a forma de compartilhar coisas sobre nós ou sobre o que nos interessava era criar um site. E os sites eram mágicos e criativos. Ou o óculos da nostalgia faz com que eles pareçam.

    Antigamente a gente ENTRAVA na Internet, ficava online, “surfava na web” (que era o termo que se usava para definir a ação de navegar por diversos sites aleatórios através de links) e depois se desconectava. Lembra de SAIR DA INTERNET? Era mágico, não? Hoje estamos conectados 100% do tempo. É legal, mas um tanto ENLOUQUECEDOR também.

    Isso é um papo de IDOSA DA INTERNET, e sim, já posso ser considerada um fóssil virtual pelos padrões dos jovens de hoje, que já nasceram nessa tal web 2.0.

    No começo das redes ainda existia a possibilidade de customizar o seu perfil, em graus variados, deixando as coisas mais a sua cara. Nesse período de transição, lembramos do MySpace, LiveJournal e até mesmo o finado Twitter permitia uma customização do perfil. É a página pessoal dentro do contexto corporativista, mas ainda era um tanto pessoal.

    Corta pra agora, que as pessoas vivem em cercados: meia dúzia de apps que a gente entra pra ver o que está acontecendo. Um feed infinito pra rolar. Uma chuva de informações.

    Mesmo os sites pessoais não são eternos. O GeoCities, um dos maiores provedores de espaços para hospedagem de sites foi descontinuado e MUITOS conteúdos perdidos para sempre. Ainda é possível acessar os que foram arquivados, mas a maior parte se perdeu. Eu mesma não consigo mais encontrar meus velhos sites hospedados no GeoCities e outros serviços, como CJB, HPG, etc.

    Eu assisti um vídeo um dia desses sobre um site nos primórdios da Internet que vendia pixels para a pessoa anunciar sua webpage nessa tal página. As pessoas pagaram pra ficar “eternizadas” nesse site. Ele ainda existe, porém vai perdendo links a cada dia, o tal do “link rot”. Literalmente, um apodrecimento dos links. Sobre esse assunto, tem muita gente falando da morte da Internet ou até mesmo a teoria conspiratória da Internet Morta. Que são dois assuntos diferentes, mas que tem algumas conexões. Eu acho um assunto fascinante, as mídias perdidas, sites que existiram e não existem mais. Porque muita coisa faz parte da minha memória, de sites que eu acessava frequentemente e hoje não existem mais no mundo virtual, apenas na memória.

    Nada é para sempre, isso é óbvio. Mas é possível fazer ao menos um pequeno espaço da Internet ser SEU. Pelo tempo que você pagar para manter online, é claro, mas ainda assim, é seu. Não é comandado por uma empresa big tech com interesses escusos. Não tem algoritmo. É um lugar onde sempre podem te encontrar. É por isso que vem acontecendo uma onda de construções de sites pessoais a moda antiga, tal qual como eram lá nos anos 90. O NeoCities é um bom exemplo disso.

    Esse meu espaço, o Blanchâtre, é meu desde 2007. É um site moderno na construção, mas agora com uma estética mais retrô, porque sim, eu senti saudade de ser criativa no desenho da minha página pessoal.

    Tirando o óculos da nostalgia: tinha muita bobagem e porcaria no conteúdo antigo da Internet, assim como hoje. Como era uma terra ainda mais desregulamentada do que é atualmente, conteúdos criminosos também eram comuns. Não era uma Internet perfeita. Poderia ser até mais criativa do que a Internet de hoje, mas tinha seus problemas.

    O mesmo se pode dizer do Twitter. Sempre foi um lugar para gritar na beira do abismo. E, quando se olha para o abismo, ele olha de volta para você. Ou seja, era um lugar para externalizar o que se pensava e, para o bem e para o mal, virou um lugar influente para uma parcela pequena, porém barulhenta do mundo. Era de todo ruim? Não. Foi criado para o mal? Acho que não. Mas olha onde chegou.

    É ainda a busca por conexões humanas que nos leva até as redes sociais. O ser humano é um animal social, afinal. As redes existem porque tem humanos nelas. Elas morrem quando são corroídas por bots e discursos de ódio. Tudo o que vimos o Twitter passar.

    É preciso ter a consciência que as grandes redes sociais são um negócio para seus donos e acionistas. A economia da atenção, que busca o seu tempo e dinheiro é o que as move. É importante ocupar espaços, como o que tenho visto do movimento da esquerda em tentar ocupar o Bluesky, mas não esquecer que são quintais murados, com dono e interesses.

    Então… o que fazer? Como eu falei, é legal manter uma página sua, para que você não perca conexões. Um ponto fixo no meio de um espaço volátil. Abandonar as redes? É muito difícil. Porém, existem alternativas a praticamente todas, através de comunidades descentralizadas no Fediverso. Entra aí redes como o Mastodon, que não é tão o bicho de sete cabeças que as pessoas acham que é. Bluesky e Threads já acenam para o Fediverso, com opções de pontes entre as redes. É interessante pensar em um serviço que você não ficaria preso a um aplicativo só. Poderia migrar entre as opções, levando seus contatos junto, e continuando a interagir normalmente, tal qual o e-mail funciona. Isso existe, e é o Fediverso, que talvez seja a melhor resposta a essa volatilidade da Internet, em termos de redes sociais.

    Eu sou a favor de tirar o poder da narrativa das mãos dos bilionários.

    Mas nada é para sempre na Internet.

    Tirando talvez o site do filme Space Jam, que é o mesmo desde 1996.